Os rios de Tatiana Salem Levy
Quando, em 2009, li o romance de estreia de Tatiana Salem Levy − a autora nasceu em 1979, em Portugal, e veio para o Brasil com um ano de idade −, A Chave de Casa (Record, 2007, ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura de 2008), percebi que iria enfrentar um texto que poderia provocar uma catarse em mim. O livro começa assim:
“Escrevo com as mãos atadas. Na concretude, imóvel do meu quarto, de onde não saio há longo tempo. Escrevo sem poder escrever e: por isso escrevo. De resto, não saberia o que fazer com este corpo que, desde a sua chegada ao mundo, não consegue sair do lugar. Porque eu já nasci velha, numa cadeira de rodas, com as pernas enguiçadas, os braços ressequidos. Nasci com cheiro de terra úmida, o bafo de tempos antigos sobre o meu dorso. Por mais estranho que isso possa parecer, a verdade é que nasci com os pés na cova.”
Como não se sentir coagida, intimidada a continuar? Li A Chave de Casa em uma tarde, na sala de espera de um hospital. O que a autora me mostrou foi a real possibilidade de traduzir sensações em texto, ser real sem ser clichê, ser verdadeira e terna sem ser piegas.
Agora, Tatiana Salem Levy chega com Dois Rios (Record, 2011), livro que eu também li (ou seria melhor dizer que me deixei levar por ele) em uma tarde. Romance narrado em primeira pessoa, a história é contada por Joana e Antônio, irmãos gêmeos que recapitulam a história familiar sob óticas diferentes − cada um tem seu jeito de ver os acontecimentos, cada um tira suas conclusões e cada um tem suas próprias justificativas para explicar os rumos que tomaram. E cada um tem suas acusações.
Irmãos que perderam o pai aos 12 anos e que viram a doença da mãe piorar ao longo do tempo, ao ponto do transtorno obsessivo compulsivo de Aparecida tirar dela o que se conhece por vida: ela só andava nas calçadas portuguesas de Copacabana desde que não pisasse nos rejuntes e que tocasse apenas uma cor, preta ou branca, nunca as duas em uma caminhada só. A porta de casa nunca estava fechada como deveria, dando uma sensação ao leitor de que ela precisava se fechar cada vez mais dentro de si para sobreviver. E os talheres precisavam estar equidistantes do prato na mesa de jantar.
Tatiana sabe iniciar seu livros. Como se não bastassem as primeiras linhas de A Chave de Casa, em Dois Rios ela enfatiza o talento de prender o leitor logo de início:
“Foi a Marie-Ange quem me salvou. Se é que isso existe, a salvação.
Antes do nosso encontro, eu estava presa a casa e a tudo o que ela encerra: a umidade, o mofo, as fotografias desbotadas, a loucura da minha mãe e o silêncio. Sobretudo o silêncio, e com ele o medo e o passado a impedir que eu descobrisse o mundo. Quando a Marie-Ange chegou, eu entendi que podia começar de novo, sob outro prisma, retomar o que era meu e tinha ficado lá atrás. Mas foi preciso que ela chegasse, vinda de fora, uma aparição”.
É com os relatos de Joana e Antônio que Tatiana Salem Levy nos fala sobre a perda do pai e da estrutura familiar, o amor pelo irmão e por si mesmo, o ódio pelas escolhas dos outros que têm consequências em nós, a doença incontrolável de quem se ama, o medo de ver o outro partindo, a fuga do que dói e o reencontro consigo mesmo e com o próprio passado. Desta vez, a jovem e talentosa escritora de alma carioca descreve uma história com os personagens de Copacabana e os Biscoitos Globo, típicos do Rio de Janeiro, fala sobre a repressão de um Brasil em tempo de ditadura militar. História e verdade se misturam em uma discussão sobre as relações.
Joana e Antônio, irmãos gêmeos, são, na verdade, um só.
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Tatiana Salem Levy fala sobre Dois Rios:

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